Domingo, 6 de Junho de 2010

NORA DO BARRANCO

       (Foto da Wikipédia que não corresponde ao que era a Nora do Barranco)

 

NORA DO BARRANCO

 

A Nora do Barranco era, como tantas outras existentes por esse Portugal e por esse mundo, um engenho de tirar água destinada à rega das mais diversas espécies agrícolas. O Barranco, lugar que empresta o nome à gigantesca engenhoca, é uma grande tapada que se situa logo a seguir à Chã Martins à direita do caminho que nos leva da Atalaia para a Degracia e vice-versa. Predominam ali sobretudo os sobreiros e na primavera, as estevas cobrem de verde e de flores imaculadas os terrenos mais agrestes.

A necessidade de obter um ponto de inclinação que permitisse que a água corresse para um tanque de armazenamento situado na meia encosta obrigou a que, a nora tivesse que se elevar vários metros acima do solo. Contando com a profundidade do poço diria que a água seria elevada pelos alcatruzes até cerca de doze a quinze metros, contados desde o seu nível no fundo do poço até ao tabuleiro situado num patamar de construção metálica suportado por dois enormes pilares de alvenaria.

As noras são engenhos de tirar água accionados pela força de puxo de um animal que marcha em constante movimento de carrossel e de olhos vendados, a fim de evitar aquela espécie de bebedeira que já todos alguma vez experimentámos em pequenos quando rodopiamos.

Burros, mulas, cavalos e até bois, eram, pelas necessidades da vida, autenticamente “escravizados” num esforço levado ao limite durante horas e horas marchando num trilho em circunferência que obrigava o animal a uma postura em que todo o seu corpo se curvava ao formato do caminho.

A grande maioria destas noras eram montadas directamente sobre duas pequenas vigas fixadas directamente na parede do poço.

A Nora do barranco não era assim. Havia um eixo que se elevava a vários metros na vertical até aos dois enormes carretos que se casavam para transformar o movimento vertical da tracção animal no movimento horizontal da grande roda que suporta a corrente de alcatruzes que se iam sucessivamente despojando da água que um após outro iam trazendo do fundo do poço.

Imaginemos que, cada alcatruz tem capacidade para 5 litros de água, se multiplicarmos isto por cerca de 20 a 25 alcatruzes cheios a subir em simultâneo, dá para perceber que são cerca de 100 a 125 kg a serem puxados ininterruptamente na vertical.

A água cristalina chegava vagarosamente ao tanque, ao ritmo pachorrento com que o animal se deslocava penosamente no calvário que em cada verão o desesperava.

O feijão-frade já ia verdejando na várzea de terra cinzenta que se estende a perder de vista, e em breve seria necessário começar a soltar a água armazenada no tanque, sem que isso significasse o abrandamento do ritmo de funcionamento da Nora. E era assim, até que o feijão ficasse maduro e pronto para ser colhido e levado para a eira, onde, estendidas ao sol, as suas vagens se manteriam até estarem suficientemente ressequidas e prontas a serem separadas dos pequenos grãos, aguardados pacientemente pelas populações que os acautelavam quase religiosamente como recurso alimentar para os tempos mais frios em que outros alimentos escasseavam.

 

2010-06-05

João Margarido Chamiço

 

publicado por João Chamiço às 00:27
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Domingo, 21 de Fevereiro de 2010

RETROSPECTIVANDO

Para trás ficara já o Alto Pina. Agora, o caminho descendente que pela vertente se estende vai ficando cada vez mais estreito e pedregoso.

À direita do carreiro há uma franzina pereira silvestre, tão carregada de anos de sede intensa como carregada de miúdas peras quase tão duras como as magras pedras que a rodeiam.
Na margem esquerda do carreiro fumega um desajeitado montão de terra barrenta, debaixo do qual se vai abrasando em fogo brando um amontoado de raízes de lentisqueira, que por esse processo ancestral de cozedura se há-de tornar carvão vegetal de cepa.
O caminho contrai-se a cada passo, invadido aqui e ali por murtinheiras e por grandes giestas brancas. As estevas e acácias dominam sobretudo as encostas, e também o vale profundo chamado de Poço Escuro e que tem a fama já provecta de ser o “reino” das cobras e víboras das redondezas.
 O trilho não passa agora de uma sinuosa vereda e uns metros mais adiante não será senão um quase sumido carreiro de formigas e depois nem isso.
Ainda não se vislumbra o leito da ribeira mas já é possível ouvir o seu cântico eterno, tão velho como o vale que lhe dá abrigo desde o inicio dos tempos.
No verão, A Ribeira da Aferreireira desliza tranquilamente, sem pressa nenhuma de se aventurar para lá do seu bucólico e quase invisível lugar, bem no fundo de uma soberba ravina tão rude e agreste quanto indescritivelmente sublime.
Agora, já não há caminho de todo. A descida quase a pique vai-se fazendo às escorregadelas, ziguezagueando para contrariar o risco sempre eminente de alguma escorregadela incontrolada.
Deslizar ou rebolar descontroladamente por ali abaixo poderia tornar-se numa “aventura” de graves consequências, mas ainda assim são frequentes as imprudências e os riscos levianamente avaliados, descendo atabalhoadamente, galgando pedregulhos até ao leito da ribeira também ele juncado de pontiagudas e lancinantes ardósias.
Concluída a descida sem percalços de maior, é hora de ficar apenas com a roupa com que se veio ao mundo, despidos de roupas e de preconceitos. Depois, é mergulhar nas águas calmas e cristalinas do “Poço Grande”, a única “piscina” que existe nas redondezas e a que todos têm acesso ao preço a que a mãe natureza nos proporciona todas as coisas que o mundo tem e para as quais os homens encontram sempre um preço.
É fácil imaginar a chinfrineira de um grupo de uma dezena de rapazes das idades mais diversas, alguns já homens, que pulam das rochas dando largas à sensação de total liberdade que só um lugar assim pode permitir.
Nos baixios a jusante do Poço Grande refugiaram-se alguns barbos e carpas que se escondem por entre as rochas ou apenas debaixo de lajes, tentando escapar àquela inusitada confusão. Já as enguias, é por ali que se escondem por entre as rochas ou dissimuladas debaixo da parca areia que ali há.
Ao cair da tarde o caminho faz-se no sentido inverso, e, se a descer “todos os santos ajudam,” é no esforço da subida que o maior desafio acontece. Ziguezagueando encosta acima é que se vai vencendo cada metro daquela arriba que se nos apresenta quase na vertical como que querendo cair-nos em cima.
De vez em quando faz-se uma pausa, não apenas para repor as forças mas também para olhar mais uma vez ou outra, em ar de despedida, aquele paraíso perdido, que vai rapidamente escurecendo à medida que os últimos raios de sol do dia deixam de iluminar o leito da ribeira pelas 5 horas da tarde.
Uma laje em forma de disco mal talhado está mesmo ali a pedi-las. Posta de pé e largada encosta abaixo atinge uma velocidade tal que chega a voar metros e metros sem sequer tocar no chão até se estatelar no fundo pedregoso da ribeira com o estrondo de um bombardeamento ressoando por todo o vale até para lá da velha fábrica de lanifícios desmantelada há mais de 50 anos.
Ali está a franzina pereira silvestre, carregadinha de frutos, que à falta de melhor, acabam alguns por ser rapidamente devorados, deixando-nos a boca a saber a “papéis de música”.
Dos vales profundos que ladeiam o caminho sente-se um profundo odor a mel, que emana das flores de esteva que o sol ardente fustigou durante todo o dia.
Agora está na hora de fritar os barbos, as carpas e as enguias. O petisco é comido ali mesmo no meio da rua à vista de toda a gente, não há segredos e não é por ser tão escasso o pitéu que não deixa de caber uma migalha a cada um que ali se chega.
 
Este é o “retrato” retrospectivo de uma ida à Ribeira da Aferreireira num domingo de Agosto de há 40 anos atrás.
 
João Margarido Chamiço, 2010-02-21
sinto-me: Nostálgico
publicado por João Chamiço às 22:36
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Terça-feira, 8 de Dezembro de 2009

HISTÓRIAS DE ANTANHO - OU O MACHO QUE NÃO QUERIA LAVRAR

Era uma manhã ainda fresca de Março. Dois amigos caminhavam para mais uma jornada de lavoura no Cabril. Antes porém, havia que parar na fonte de baixo para que enchessem o bucho de água os animais que haveriam de puxar pelo arado na jeira que iria durar o tempo que duraria a luz do sol desde o nascer ao pôr.

 
Um dia, um dos animais que caminhara a passos largos até à fonte, quase a trote, depois de saciar demoradamente a sede e quando havia que retomar o caminho, pura e simplesmente se recusou a fazê-lo. Era como se estivesse colado ao chão ou como se houvesse ali algum fantasma a barrar-lhe o caminho. De nada servia puxá-lo pela arreata, empurrá-lo, tentar intimida-lo com o chicote, nada!
Os dois amigos estavam perplexos. Com o é que um animal que nós intitulamos de besta, de repente percebe que, para ali, naquela exacta direcção, está a penitência, o sofrimento, o suor e a dor que o tem atormentado dias e dias?
Várias estratégias foram pensadas no sentido de resolver a situação sem recurso à violência. Não é boa ideia “escaldar” estes animais com agressões que os podem enervar e torná-los esquivos e desobedientes às vezes para toda a vida. E como é preciso que aprendam a trabalhar tranquilamente, quer na lavoura quer como meio de locomoção ou de carga, ou ainda de cavalaria, há que ter algum cuidado na forma de com eles lidar.
- Bem, se calhar temos que lhe aplicar aquela “receita mágica” de que se ouve falar por aí e que, ao que parece, dá resultado com os cavalos quando ficam deitados no chão negando-se a cumprir as tarefas que lhes são destinadas.
 
A dita "receita" consistia em juntar algum pasto seco bem perto do animal e lançar-lhe o fogo.
Não foi preciso chegar a esse extremo, já que, a um dos amigos surgiu uma ideia muito mais civilizada.
- Vamos testar se aquilo que estamos a pensar é a verdadeira razão da recusa do animal em continuar.
 - Que tal tentar fazê-lo virar costas ao trabalho e simular o retorno à cavalariça para ver como reage?
- Limpinho!
O pobre do macho tinha as suas razões. Era ainda tão jovem para tão árdua tarefa que era aquela da lavoura nas terras agrestes do Cabril.
Mal o animal pressentiu que “estaria dispensado” e imaginando-se no aconchego dos “aposentos” devorando as favas que aguardavam na manjedoura, era um “vê se te avias”.
 
Uma vez que o bicho se recusava a seguir pela estrada em direcção ao Montinho, que tal ludibriá-lo, fazendo-o acreditar que iria pastar ali para os lados do vale da Macieira? É que o dono, o primo José Margarido Ferreiro, tinha por ali uma horta, e não era a primeira vez que o macho era levado para lá a pascer.
E foi assim que eu próprio e o meu especial amigo Francisco Bicho, “o ti Xico Bicho” lográmos encaminhar o pobre do animal até ao local onde nos aguardava mais um dia de regos e trambolhões na semeadura do centeio nas escarpadas encostas das terras da Cabrueira.
 
João Margarido Chamiço
 
 
publicado por João Chamiço às 02:13
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Quinta-feira, 26 de Março de 2009

FONTE DE BAIXO

 

As raparigas iam à fonte equilibrando cântaros sobre a cabeça e os rapazes aproveitavam para metar conversa. Era assim que alguns namoros começavam. 

publicado por João Chamiço às 23:20
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Sábado, 27 de Dezembro de 2008

O PASTOR

 

 
“És um cão solitário!” – Pastor;
De cabaça ao ombro, vens da fonte,
Mas bebes a chuva, e o suor
Que amargo te goteja da fronte.
 
Quão quedo, se avista aquele monte,
De secos pastos e vastos campos;
Perde-se o ser, e o horizonte,
E perdes tu pastor os encantos.
 
Às gotas matinais dos orvalhos,
Ouvirás badalar os chocalhos
E as campainhas a tilintarem.
 
Se o tempo estival se mantiver,
Vem deitar-se contigo a mulher;
Se hoje as nuvens negras não voltarem.

     ---------------------X---------------------X---------------------

 

O único pastor que realmente conheci, conhecer assim de verdade mesmo, foi o ti Manuel Calado. Bem sei que muita gente gostaria de se enaltecer dizendo que conheceu, sei lá? Um presidente da República ou um actor famoso! São feitios, e cada um tem o seu. Eu por mim orgulho-me de dizer que este homem foi mais um dos que nesta vida fizeram o favor de ser meus amigos.
Nem mesmo o facto de eu ter idade para que ele fosse meu avô, tinha eu os meus 13 e ele seria homem para uns cinquenta e tal, nem mesmo esse facto, dizia eu, foi impedimento a que tivéssemos tido um pelo outro grande estima.
Era afável para com as pessoas e muito carinhoso para com as crias das “suas” ovelhas. Muitas vezes tinha de as levar ao colo, quando estas, já “mortas” de cansaço, se recusavam a acompanhar o resto do rebanho.
O ti Manuel era casado com a ti Adelina Moreira e viviam ali na Atalaia de Gavião.
Tiveram vários filhos em comum, mas, ele ia gastando os dias da sua vida como qualquer outro pastor. Não passava de um pobre “cão solitário” calcorreando vales, prados e montes gritando e assobiando ao rebanho e falando apenas com o seu fiel companheiro de ofício de cada vez que o atiçava às ovelhas mais belicosas.
De vez em quando puxava de uma onça de onde tirava um pouco de tabaco que enrolava numa mortalha de papel. Era capaz de entreter assim o vício por um dia inteiro com um único cigarro que trazia sempre pendurado dos lábios ora aceso ora apagado.
Apercebi-me certa vez e tive de o alertar para o facto de que ele trazia o fogo ateado ao próprio peitilho da camisa, devido certamente à queda de algum morrão ainda aceso que se lhe prendeu à camisa.
 Pernoitava numa choça de madeira no meio do nada, no breu da noite, lá onde desse jeito ficar para que o gado estivesse perto da pastagem logo pela manhã.
Às vezes deitava-se sem ceia ou fervia um pouco de leite ordenhado de propósito no momento. Depois retalhava meio pão de centeio que atirava para dentro do leite em pequenos pedaços que rapidamente se transformavam em sopas de leite.
Repartia com os seus cães, companheiros do dia e da noite, o seu magro repasto.
Eram raras as vezes em que ia a casa, mas em certos dias, notava-se-lhe um brilhozito nos seus pequenos olhos. Era quando adivinhava o dia em que a ti Adelina traria ceia para os dois e para os cães e pernoitaria com ele na choça.
                                                                                             João Chamiço
 
A foto enconta-se na net no endereço abaixo http://farm1.static.flickr.com/62/200321767_5b8affcb80.jpg?v=0
 
 
 
música: Ao Romper da Bela Aurora
publicado por João Chamiço às 19:34
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Quinta-feira, 18 de Dezembro de 2008

ISTO NÃO PODIA SER EVITADO???

 

  (Foto gentilmente cedida pelo Zé Diniz)

 

 (Foto gentilmente cedida pelo Zé Diniz)

 

sinto-me: Esmorecido
publicado por João Chamiço às 00:19
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Quarta-feira, 27 de Agosto de 2008

HISTÓRIA BREVE DA ATALAIA

Atalaia, tal como o nome leva a supor, situa-se num alto de onde se estende o horizonte, razão pela qual nos tempos idos foi local de uma torre de vigia e de uma fortaleza destinada a refugio e protecção às invasões castelhanas. Esta informação pode ser vista no livro "Monumentos Militares Portugueses", cap. III pág. 138: "No cimo do pequeno outeiro, cota de 275m, que se levanta no extremo sudoeste da povoação da Atalaia, situada a 5km a su-sudoeste da vila de Gavião, existem ligeiros vestígios de uma antiga construção Castrense. Dada a sua situação e natureza e o facto de ali passar a via militar Romana que de Santarém prosseguia para Cáceres por Castelo de Vide e Aramenha, é de presumir que se trate de um Castro Lusitano da época do calcolítico,mais tarde aproveitado pelos Romanos, e transformado, segundo a sua técnica castrense,para guarda daquela estrada imperial.

Destruído o castelo Romano pelos Vândalos, teria sido reconstruída uma das torres, a qual serviria de atalaia durante as lutas da reconquista neo-goda e as lutas com Castela. Durante as guerras da Restauração foi restaurado o castelo ou torre de atalaia e construída uma alta cerca amuralhada para refúgio dos habitantes das vizinhanças e seus gados contra as incursões e correrias dos Espanhóis."

publicado por João Chamiço às 23:11
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Domingo, 24 de Agosto de 2008

ALENTEJO AUSENTE

O Alentejo, é cada amigo meu,

E é cada grão de trigo de uma vida

e cada lírio triste que morreu;

E é um sobreiro velho, e sou eu!

E cada giesta branca ali nascida.

 

O Alentejo, são gentes que vagueiam,

P’ra sempre agrilhoadas ao “seu chão”;

E as papoilas vermelhas que incendeiam

As paisagens, e as misérias que medeiam

Mesas alheias em que sobra o pão.

 

O Alentejo é um vagaroso rio

Que se esgota exangue, que se esvai

Em enxurradas de sol e de estio,

Jorradas em searas de pousio

E marés de malmequeres em Maio.

 

O Alentejo é um brado que murmura

Dentro de mim sussuros inaudíveis,

Recados da saudade que me obtura

Indelével no tempo e na lonjura

E em sonhos de regressos impossíveis.

 

O Alentejo é um poema infinito

Qual pintura de sublime aguarela;

Perfume das estevas, inaudito,

É o eco dissipado de um grito:

Soneto arrebatado de Florbela 

João Chamiço

sinto-me: Longe
música: O Passarinho
publicado por João Chamiço às 00:28
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Domingo, 3 de Agosto de 2008

NISARTES

Como sinal de solidariedade alentejana, aqui fica um link muito interesssnte.

Não deixe de ir ver.

 

http://nisartes.blogs.sapo.pt/

 

 

publicado por João Chamiço às 01:01
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Sexta-feira, 18 de Abril de 2008

"O TEJO E A NEBLINA ETERNA"

Seis anos. Seis anos eram os que tinha aquele menino que pulou da cama a meio da noite quando o pai se apressava para se por a caminho.

Eram 4h30 de uma madrugada tépida de verão. As pestanas tentavam teimosamente fechar-se sobre os seus olhitos baços de sono, e a permanente lembrança do aconchego dos lençóis adensavam-lhe ainda mais a vontade de ficar na cama. Porém, a carroça de grandes rodas de madeira e ferro, rapidamente se pôs ruidosamente em marcha pelos caminhos, umas vezes de macadame e outras vezes, as mais das vezes, apenas de terra e calhaus.

 

Ver o rio Tejo pela primeira vez e mesmo passar para lá dele, fazer a travessia do rio lá na Barca da Amieira, juntamente com a carroça e o macho e uma data de gente nunca antes vista, era uma odisseia a que nem todas as crianças tinham a oportunidade de ter acesso. Daí que, todos os sacrifícios valessem a pena, ainda que isso implicasse saltar inusitadamente da cama a meio da noite em vez de ficar comodamente deitado até para lá do nascer do sol.

 

A casa, no Vale da Feiteira, na Comenda, rapidamente desapareceu do alcance da vista, apesar da marcha pachorrenta da carroça que se prolongou por tantas horas que mais parecia que os levava em busca de algum lugar num qualquer fim do mundo imaginário.

Depois, finalmente, a povoação de Amieira do Tejo primeiro, uns longos metros de um velho caminho feito de pedaços de granito, e logo o cais, ali ao fundo, onde o caminho acaba e o rio começa.

 

- Que barca enorme! Exclamou ele admirado com a dimensão da jangada que haveria de os levar a bom porto já na outra margem do grande rio tão enigmático como as nuvens brancas quase eternas que se avistavam a quilómetros de distância a pairar sobre o vale em que o Tejo desliza; ora calmamente, ora furioso e revolto em direcção a S. Julião da Barra.

 - Que nuvem é aquela pai? Aquela ali, tão branca, que se estende ao longo de todo aquele vale!

 - Estou a ver. – Aquela nuvem está ali todos os dias, ou quase, é a neblina provocada pela evaporação das águas do Tejo, sempre que determinadas condições atmosféricas se conjugam. E elas conjugam-se muitas vezes!.

- Isso quer dizer que é já ali o Tejo?

- É o Tejo sim, mas não é já ali!. Apenas parece que é já ali!. Vais ver que é muito mais longe do que parece!.

 

À hora marcada, o barqueiro mandou subir; primeiro a carroça e a mula, depois umas dezenas de pessoas que esperavam pacientemente pelo momento de embarcar, como se fossem atravessar o mar em busca da terra prometida.

A canzoada não parava de ladrar a toda a gente que chegava, mas no momento de embarcar, também eles subiram à barca. Aconchegaram-se a um canto de onde observavam ininterruptamente a corrente. Todas as bocas caninas se emudeceram tão estranhamente que mais parecia haver ali um prenúncio de tragédia. Ou será que os cães, ao contrário das pessoas que ali iam, sabiam por instinto que ali passara o cortejo fúnebre de uma das mais conhecidas e ilustres rainhas de Portugal, a rainha Santa Isabel, aquando da transladação do seu féretro de Estremoz para Coimbra, e por isso faziam reiteradamente aquele silêncio?.

 

As mãos do barqueiro pareciam de ferro, e com elas ele empunhou uma vara enorme que ia firmando no fundo do leito fazendo deslocar a barca até à margem oposta, lá onde o Alentejo acaba e a Beira principia.

Três ou quatro impulsos da grossa vara, e eis a Beira Baixa, ali, no cais do lado norte do rio.

A Estação do "Fratel – Barca da Amieira", servia os passageiros da linha da Beira Baixa que moravam de um e outro lado do caudal, e estava agora ali, à mercê dos agora desembarcados mal puseram os pés em terra firme na margem direita do rio.

 

Os pimentos vermelhos que a ruidosa carroça transportava destinavam-se à Fábrica de São José das Matas onde iriam ser moídos e transformados em pimentão, e era nestes meios rudimentares de transporte que eram carreados desde as terras de produção nas Polvorosas e noutras herdades das redondezas.

 

As giestas floridas de amarelo que cobriam os campos na primavera, há muito que se haviam transformado em arbustos apenas verdes e fecundos cobertos de vagens repletas de sementes prestes a eclodir.

As flores brancas das estevas haviam perdido todas as pétalas e estas eram agora apenas plantas sequiosas, de folhas luzidias e peganhentas, e das suas belas flores alvas não restavam agora senão as coroas esturricadas pelo sol.

Os tojos e os sargaços também se haviam rendido ao implacável rigor do estio, e todas as flores das papoilas vermelhas haviam caducado de vez e já se haviam despedido até à próxima primavera.

 

Quando finalmente se avistou a Fábrica de pimentão já o sol se aprestava a “afundar-se” para lá da linha do horizonte.

 O animal de jugo estava completamente exausto, e o seu pelo repassado de suor mais parecia ter atravessado uma tromba de água, e mesmo assim era como que voasse. Parecia ter a certeza de que era ali que se iria livrar da pesada carga que o atormentava desde alta madrugada, ainda que algumas breves paragens pelo caminho lhe tivessem permitido retemperar as forças e aconchegar o estômago com algumas favas e alguns grãos de aveia que sorvia de um saco de serapilheira em que enfiava o focinho até à orelhas repescando minuciosamente cada pequeno grão.

 

O miúdo de seis anos, vencido pelo cansaço, depressa adormeceu, mau grado a dureza do lastro da carroça.

O regresso a casa aconteceu já noite adentro, quase à mesma hora a que se iniciara a viagem no dia anterior.

 

As nuvens brancas continuavam lá, e o miúdo de seis anos, revivia a lembrança de toda aquela novidade interrogando-se se; a barca e aquele “estranho” barqueiro que usava a força dos seus braços como meio de locomoção serrando os grossos punhos em volta de uma espessa vara que fundeava vigorosamente no leito sinuoso do rio, lá estaria também e até quando.

 

40 anos mais tarde voltei ao rio. Voltei ao velho cais. Sim, voltei!

Já perceberam que era eu mesmo, aquele miúdo de seis anos que saltou da cama a meio da noite para ir ver o Tejo e aquela estranha neblina que se avistava de longe parecendo querer manter dissimulado o rio lá bem no fundo daquela ravina, mas que ao mesmo tempo o denunciava com a sua quase eterna presença.

 

Se subirmos ao Alto Pina, na Atalaia, e estendermos o olhar para norte na direcção da Ladeira, o mais provável é podermos observar aquele manto branco, que em certos dias nos turva a visão a ponto de nos parecer ver uma cordilheira de montanhas.

 

40 Anos depois retomei o percurso no mesmo sítio, e a viagem não demorou senão uns 25 minutos. De automóvel claro!.

 

  

O Castelo de Amieira continuava lá como antes e o cais da “Barca da Amieira” também.

A barca estava em seco, não sei se “moribunda”, e não havia sinais de haver por ali barqueiro algum de grossos braços que me levasse ao outro lado do rio.

A neblina quase eterna que se avistara de longe desde que o dia clareara já se havia dissipado, mas na manhã de amanhã ela irá marcar presença no mesmo lugar.

Vá-se lá adivinhar se os cães, se ainda os houver, irão parar misteriosamente de ladrar perante a eminência do embarque, e vá-se lá adivinhar se não haverá gente, nem carroças nem mulas, nem outro vigoroso barqueiro que os leve a todos a bom porto.

 

 

 

João Margarido Chamiço

 

Sítios relacionados:

 http://amieiradotejo.blogspot.com/

http://www.cm-nisa.pt/casteloamieira.html

sinto-me: Nostálgico
publicado por João Chamiço às 00:06
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